2005-01-17

Adeus Pratas 

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O Pratas deixou-nos. Para sempre. Mas apenas no plano físico.
A sua partida, deixa-nos com um nó na garganta, sem conseguirmos conter as lágrimas. Mas deixa-nos também a certeza de sermos previlegiadas por termos convivido com ele vários anos, por termos conhecido um homem íntegro, por termos pertencido ao grupo das pessoas de quem ele gostou.
Em cada canto desta casa há um pedacinho do Pratas. Quando pousamos a mão sobre o tapete para o rato que nos ofereceu, quando pegamos na esferográfica mais gira, quando pegamos no isqueiro mais vistoso. Quando fechamos os olhos e quase ouvimos o tilintar das suas chaves ao aproximar-se de nós. Quando chegamos de manhã, vemos o seu carro vermelho parado ao fundo da garagem e pensamos momentaneamente distraídas " O Pratas já chegou.
O Pratas deixa imensas saudades. Conseguiu ser sempre autêntico, franco, honesto, directo, e por isso criou amizades em todos os lugares por onde passou. Nós tivemos a sorte de o conhecer. E nesse conhecimento que, com o tempo, se tornou numa verdadeira amizade, nada ficou por dizer, porque tudo era discutido e esclarecido, umas vezes com mais tacto, outras nem tanto assim, mas sempre mantendo presente que era o respeito e a amizade que nos uniam e nos permitiam falar e agir claramente.
Vamos guardar do Pratas as memórias, o sorriso, a sua boa-disposição, a sua disponibilidade, o seu carinho. E muitas, muitas gargalhadas que demos nos almoços divertidos que partilhámos. Vamos guardar as palavras sempre oportunas nos momentos mais delicados das nossas vidas, a sua capacidade de estar presente, de nos aturar quando vinhamos mal dispostas. Vamos guardar a cumplicidade, a empatia. O carinho com que abraçava as nossas filhas e com que elas lhe chamavam Avô Pratas.
Este blog nasceu também pela mão do Pratas. Por causa deste blog, aprendeu a mexer num computador, espreitava todos os fins-de-semana as novidades que estas duas amigas iam escrevendo. E ria, dizendo: “Estas cabronas!”. Concluímos que, agora que o Pratas nos deixou, este blog chegou também ao fim. Foi morrendo devagar, como o Pratas, com o Pratas e esteve inerte enquanto o nosso amigo esteve hospitalizado. Fica recheado de memórias do Pratas, e sempre que a saudade apertar, podemos relê-lo para o recordarmos a rir, como gostaria. É um grande amigo que acabamos de perder e apenas nós sabemos dar valor a esta amizade, em que a diferença de idades nunca gerou qualquer obstáculo, pois foi mais do que nosso avô, foi o amigo a quem confidenciámos coisas que nunca partilhámos com os nossos pais ou avós. Não há palavras no mundo que possam descrever o nosso grande amigo, o que nos vai neste momento na alma nem a falta que nos vai fazer.
Como ele próprio dizia muitas vezes, quando as situações se tornavam irremediáveis: “Shakespeare”.

Florbela
Natércia




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2005-01-08

Dia 3 

No final deste dia que vos vou relatar, eu pensava: que mais me irá acontecer?

Ou seja, de manhã, preparada para regressar ao meu trabalho, enfrentar mais um ano com unhas e dentes, lá me levantei na correria do costume, menos irritada que no dia anterior, até porque a semana estava no príncipio e pensei que não valia a pena enervar-me porque tinha mesmo que ir trabalhar e correr, como todo o ano, contra o relógio para deixar a Mariana a horas na escola e eu própria chegar a horas ao meu trabalho.

Pegou moda entre os miúdos um CD dos Da Wesel, que para a minha filha serve para adormecer de manhã (como se o intuito do grupo fosse esse...). Já adormecida, decidi mudar o CD para outro qualquer outro mais a meu geito. Pois é, só que nessa distracção de tirar e pôr o disquinho não me apercebi que o sinal vermelho caira e que o carro que seguia à minha frente parara. Quando levantei os olhos para me inteirar da situação, estava em cima do outro que travara e “pumba”, pé a fundo no pedal do meio, apenas conseguindo evitar um embate maior. Estavámos coladinhos um ao outro. Levantei os braços e disparei ”foda-se!”. O artista do outro carro, senhor emperuado, de classe alta, tá-se mesmo a ver, pelo tom fininho de voz, educado, mas irritado com uns simples arranhões no seu pára-choques da viatura de alta gama, comprada há bem pouco tempo, como se fosse a razão da sua vida, aborda-me: “já viu o que fez?”. O homem ainda me irritou mais com aquela pergunta estúpida. Claro que eu vira, olha que observação de merda! Não sei como consegui responder-lhe calmamente: “sabe para que é que servem os seguros?”. Puxei da declaração amigável, enquanto ele fazia festinhas no pára choques que nem estava amachucado, apenas riscado, fazendo uma espécie de beicinha. O meu carro de combate, mais uma vez, não sofrera absolutamente nada. Quinze minutos e segui viagem, enquanto a Mariana, desperta com a travagem, reclamava novamente os Da Wesel!...

Que mais me irá acontecer, pensava eu, já com o dia estragado.

O que me ia acontecer a seguir foi uma coisa ainda mais estúpida. Costumamos almoçar num quartel de bombeiros, onde todos nos conhecem, nem que seja de vista, nem que seja por virarem a cabeça por verem duas gaijas engraçadas passar. Acabado o almoço, saímos, passamos frente à sala onde diariamente o bombeiral faz uma espécie de reunião com os chefes. É claro que as cabecinhas se voltam à nossa passagem. Neste dia, no chão estava uma fita de plástico ou coisa semelhante, daquelas que atam as embalagens. Mas algum esperto não se lembrou de a cortar com uma tesoura ou uma faca e ali estava ela, imperceptível, no chão. Conversa para aqui e para ali, um dos meus pés prende-se, o outro tropeça, e eis-me a cair no chão, de joelhos, como se estivesse a cumprir uma promessa. Apesar das dores, levantei-me num ápice, olhando à volta, certificando-me de que ninguém assistira a esta queda quase religiosa. Uns passinhos dados a custo, e eis que da sala da dita reunião, saltam três chefes! Logo três! “Magou-se? Veja lá, isso deve ter feito ferida, não quer ajuda?” - Eu sorri, amarela de dores.

E enquanto iamos andando, para nos livrarmos deles, eles iam avançando mais uns passos:

Finalmente livrámo-nos deles e desatámos a rir, apesar de eu coxear. É preciso azar. Imaginámos um dos cabos a dizer: a menina caiu! E todos a atropelarem-se para me ajudar, e um dos chefes gritar: “quietos! Isto é função dos chefes!” - o que é facto é que nenhum dos menos graduados pôs o nariz na rua... Eu, fiquei com um joelho negro e o outro completamente esfolado. O tratamento fi-lo eu própria com a ajuda da minha companheira de aventura, entre gargalhadas, gabando o tecido das calças que não se rasgou...






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2005-01-05

Dia 2 

Domingo. Dia de me preparar para iniciar mais um ano de trabalho. Mal disposta, claro está, com a prespectiva da segunda-feira e de entrar na correria de chegar a horas com a pequena Mariana à escola. Saco da ginástica, lanche, saco da dança, trabalhos de casa prontos a entregar à professora, um último olhar de soslaio pela escrita minúscula e pelas contas da estudante, roupa pronta para vestir no dia seguinte. Ok. Tudo pronto. Longe e largo com a cozinha. Decido ir almoçar a um qualquer restaurante, para descontrair.

Sem destino certo, seguimos rumo a Algés, na busca de uma marisqueira conhecida.Viro o olhar para verificar se estava aberta, ao mesmo tempo que viro o volante do carro, ao mesmo tempo que faço a curva e bato num carro estacionado. Porra! - disparei.

Do passeio oposto vejo um senhor a correr acenando com um jornal: “a senhora bateu nesse carro, que por acaso é meu!”. Confesso que nunca bati ao longo dos meus 15 anos de carta e fiquei furiosa por ser uma coisa tão estúpida. Lá entrámos em acordo, tudo à margem do seguro, já que se tratava apenas de uns riscos no pára-choques do carro alheio. O meu, sendo quase um carro de combate, apenas desencaixou um apoio lateral e o senhor até foi compreensivo, apesar daquele ar de quem pensa: “manobras de mulheres...”

Pronto, o meu dia já começava mal, o apetite para o almoço ficou um pouco esmorecido e o humor ainda ficou pior quando veio a conta.

De regresso a casa e às lides domésticas, decidi pôr a máquina a lavar, sim, porque numa casa a roupa para lavar nunca acaba... Descansada, com o Freud a dançar o samba, agarrado à minha perna, continuei a ver o filme que não vira no dia 1, o tal dia em que adormeci, deixando todos à minha espera. Distraidamente olho para o corredor e o que vejo eu? Água! Água a correr pelo corredor e salto feita louca, quase me estatelando ao comprido, fazendo um equilibrismo na primeira escorregadela. Toalhas para o chão, esfregona em riste, umas asneiras pelo meio, um olhar admirado do Freud, que resolveu ajudar, lambendo a água cheia de detergente da máquina, enquanto patinava para se segurar em pé. Um simples vedante da torneira estava podre, e durante uma hora esteve a verter água para onde calhou...

Já na cama, pensei: “hoje não devia ter saído nem ficado em casa. Devia ter saltado este dia.” - adormeci a ouvir a história do Kenai e Koda contada suavemente pela Mariana, na esperança que o dia seguinte fosse menos atribulado... Mas estava enganada...





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2005-01-04

Dia 1 

Chegámos a 2005.

Que esperamos do novo ano? Que seja melhor que o que deixámos para trás, ou que pelo menos não seja pior.

Pela parte que me toca, posso já fazer um pequeno resumo do meu atribulado início do ano.

Confesso que após a ressaca da noite de passagem de ano, saí de casa apenas por uma razão: ir visitar o nosso avô Pratas que continua hospitalizado, pouco mais tempo, assim o desejamos. Depois da cozinha arrumada, encostei-me no sofá, disposta a ver um filme, enquanto fazia tempo para ir recolher os outros dois companheiros que me acompanhariam na visita. Já prevendo o que me ia acontecer, resolvi pôr o telemóvel como despertador, para não me atrasar. Mas estes toques polifónicos só servem para uma coisa: ou fazermos figuras de parvos com a melodia cada vez mais descabida que utilizamos, ou para nos adormecer ainda mais quando resolvemos utilizá-los como despertador. Ou seja: não acordei. Dei um salto do sofá quando, já mais satisfeita com as horas dormidas, o telemóvel toca com insistência e ouvi do outro lado: “olha lá, estou na rua há meia hora à tua espera e a Natércia há 10 minutos à porta da estação dos comboios”. Tinha combinado com um às 17.30h e com o outro às 18.00. E o relógio marcava 17.50h! Vesti-me num ápice, lembrando-me que tinha umas botas a necessitarem de capas, e já que passava perto da casa dos meus pais, ia deixá-las lá para o meu sapateiro privativo (o meu pai) se encarregar de as arranjar. Ok, dentro de um saco com elas. Mais as lembranças vindas de Fortaleza, mais o saco do lixo, para despejar no respectivo contentor. E arranquei um pouco adormecida, um pouco acelerada, muito destravada.

Aguentei a bronca daquele que já me esperava há 40 minutos na boa, aguentei a bronca ainda maior da que me esperava ao frio, de mão dada com a pequena Carolina, à porta da estação. Para ajudar, uma fila terrivel de trânsito para chegar ao Hospital. No dia 1? Iriam todos visitar o Pratas, ou resolveram todos dar o passeio dos tristes, no dia que julgávamos calmo, livre de trânsito? Chegados ao Hospital, perdemo-nos naqueles serviços, naqueles corredores desertos. Quando demos com o nosso doente, faltava meia hora para o final da visita. Mas conseguimos.

Mais descontraída, parei então em casa dos meus pais, para entregar as botas. “Pai, trago aqui umas botas para me pôres umas capas quando puderes” - e estendo o saco com dois nós bem apertados. O meu pai desata o saco e ri: “botas? Isto é lixo!”. Ou seja, troquei os cabrões dos sacos, e as botas quase novas estavam no meio daquele lixo, no contentor nauseabundo. Nova correria para casa. Paro o carro junto ao contentor, olho em volta, não fosse alguém ver-me, arregaço as mangas, puxo de um chapéu de chuva para puxar os sacos do lixo com o cabo e debruço-me lá para dentro, em busca das botas perdidas. Uma senhora pára e olha-me quase com pena: “precisa de alguma coisa?” - toda despenteada, já a transpirar olho para a mulher e disparo. “Preciso das botas!” - A senhora afastou-se, desconfiada, meio a medo, tomando-me como louca e eu continuei na busca, abrindo os sacos que me pareciam conter qualquer coisa parecida com um par de botas, já sem me ralar com quem passava. Finalmente encontrei as putas das botas, apesar das mãos todas cagadas e mal cheirosas, da camisola toda porca, do cabelo a cheirar a lixo.

Cheguei a casa e fui tomar banho, pensando: hoje não devia ter saído de casa! Não imaginando o que me esperava nos dias posteriores...





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2004-12-28

Adeus, Fortaleza 

Disse adeus a Fortaleza, com um misto de pena e de alivio.

Trouxe na bagagem muitas lembranças para dar, não tantas quanto gostaria, mas as malas atafulhadas de roupa, e de tudo o resto, já não comportaram nem mais uns chinelos.

Senti pena por deixar o clima tropical onde vivi oito dias, as águas quentes e limpidas, a areia fina, as caipirinhas, o mar que se porlonga por quilómetros até se perder de vista, as ondas agrestes e meigas, que ora nos embalam, ora nos empurram para o areal.

Senti pena por o tempo passar tão depressa, embora os dias pareçam mais longos, uma vez que amanhece às 5 e meia da manhã, mas o calor obriga-nos a levantar sem preguiça, exigindo um banho de água fria.

Em contrapartida, o comércio fecha muito cedo, as lojas são trancadas com portões de correr metálicos, sujos, escondendo as montras, tornando a cidade quase fantasma às 10 horas da noite, dando a sensação que é hora de recolher obrigatório, pois caminhar por ali torna-se uma aventura perigosa.

Fortaleza é uma grande cidade brasileira, com dois milhões e meio de habitantes, ao contrário do mito que criara antes de levantar voo, do próprio mito com que os panfletos turisticos nos enchem os olhos, e nos fazem sonhar, imaginar um pequeno sitio paradisiaco. Quando aterrei em Fortaleza percebi imediatamente que me enganara. Deparei-me com grandes avenidas, um aeroporto internacional, um movimento louco em hora de ponta e a praia, só a avistei da janela do oitavo andar do hotel onde ficámos instalados. Soube também pouco depois que a praia está poluida, e embora não existindo qualquer bandeira a sinalizar o estado da água, nem nadadores-salvadores, a água é imprópria para o banho, tal como a da torneira é imprópria para beber.

A primeira imagem que guardo de Fortaleza, retive-a ainda dentro do avião, ainda no ar. Vi grandes prédios, que nasceram no meio de favelas, de bairros muito pobres. À volta do aeroporto, carradas de lixo, que caracterizam a própria cidade e os arredores. Apercebi-me imediatamente da pobreza daquele povo, dos contrastes acentuados entre ricos e pobres, que vivem todos juntos, separando-os apenas os muros dos condomínios fechados.

Portanto, as praias com que sonhara, estavam no mínimo a 30 quilómetros de distância. Tive oportunidade de ver paisagens maravilhosas, lugares quase selvagens, virgens, de almoçar com os pés enterrados na areia, sentada nas grandes esplanadas que caracterizam esses lugares de sonho. Mas a pobreza não nos abandona por onde quer que passemos. Somos abordados por crianças a pedir, por vendedores que carregam grandes sacos cheios de todo o tipo de lembranças, t-shirts, fatos de banho, camisolas, bijuteria, molduras, etc. Chamam-nos com frequência “dôtor” quando se apercebem que somos portugueses.

Visitei o Pirata, claro está, o grande forró, conhecido por todo o mundo. E não pude deixar de sorrir perante a alegria que caracteriza aquele povo, que embora, na sua maioria pobre, vive em festa, dança e canta, sorri com facilidade e é por natureza simpático, acolhedor.

Por outro lado, vemos em todos os cantos da cidade, polícias federais, munidos de pistolas e bastões, revistando crianças e detendo adultos, não poupando na violência quando as brigas estalam em qualquer rua, enfiando-os nos carros, que se assemelham àqueles que recolhem animais da rua, divididos por grades, num espaço mínusculo.

É assim o dia a dia brasileiro. O trânsito é uma selva, as passadeiras, embora existam são desrespeitadas e não vi um único sinal para os peões, é uma questão de sorte não ser atropelado. Os próprios sinais para os automóveis, são colocados depois do cruzamento, obrigando a uma atenção redobrada, uma vez que a paragem é feita, não junto ao sinal, mas antes do cruzamento... E muito lixo, muita prostituição. Não aquela que vemos em Portugal, meio encoberta, mas denunciada pelos trajes e aspecto das nossas prostitutas (nossas entre aspas, claro). Lá, andam em grupos, confundido-se com quaisquer outras mulheres, já que o calor obriga a usar roupas muito mais ousadas, e a mulher brasileira é muito mais despida de preconceitos. Passeiam-se em grupos e dividem-se, intrepelando directa e descaradamente os homens, mesmo que acompanhados de familia.

É uma realidade muito diferente da nossa. São modos de vida e de estar completamente diferentes. O alivio de que falava no inicio deste post, foi o de aterrar no meu país, e olhar para a minha terra de forma diferente, sentir outro tipo de segurança, apreciar as nossas ruas, a limpeza (embora tantas vezes nos queixemos).

Fica-me a saudade daquele povo, de olhar ameno, disponível, hospitaleiro, simpático. Apesar de tantas dificuldades, denunciadas pelo meio em que vivem, mas mesmo assim sem amargura.

Prometi a mim mesma voltar. Será mais fácil, estarei concerteza mais preparada para outras realidades, não sendo confrontada com o choque inicial de um país tão diferente do nosso Portugal, à beira mar plantado.

Nos meus olhos ficou a imensidão daquele mar, da riqueza de um país enorme, tão maltratado, a extensão enorme das praias. Trouxe comigo, para além das lembranças muitas conchas, e um búzio enorme. Gosto de o encostar ao ouvido e pensar que aquele som do mar é um bocadinho do Brasil que trouxe comigo.O próprio cheiro, leva-me de volta, mas no instante depois estou de regresso ao meu país. E sinto-me feliz por estar aqui. Com os pés bem assentes na terra onde nasci.






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2004-12-17

Férias 

Temos mesmo de ir para férias de blog.
A minha parceira foi de férias, eu fiquei a fazer o trabalho dela juntamente com o meu. Não me parece que, nesta altura do ano, consiga bagagem para assegurar o trabalho das duas e o blog das duas.
Portanto, para quem eventualmente nos visitar, aqui ficam, desde já, os desejos de bom natal.
Por aqui, apenas pedimos ao pai natal que nos presenteie com um governo decente. Já nem nos importamos com o facto de só chegar lá para Fevereiro.
Bom natal, bom natal, bom natal.




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2004-12-16

Qual loura?! 

O meu trabalho hoje foi diferente do habitual. Foi no meio do cauchu. A minha partner foi de férias e sobrou para mim. Se, pelo menos, não trouxer um bronze decente, dificilmente lhe perdoarei.
O atendimento ao público é algo que faço muito pontualmente. Nas férias da Flor, claro. Gosto de o fazer, gosto de estar com pessoas, por oposição à solidão do meu gabinete desterrado no primeiro andar.
Mas há pessoas e pessoas. Entre telefones, colegas stressados, outros totalmente ausentes, doutores com o Dr. na lapela, velhos conhecidos que trazem sempre na manga uma anedota nova e outros que entram e saem sem que se dê por eles, lá vem um inconveniente. Que nem sequer é um simples inconveniente. É um incoveniente patético. Eu explico. Sou morena, tenho o cabelo escuro. Por brincadeira, uma amiga costuma dizer que somos meio marroquinas, por virmos do Sul, termos cabelos e olhos escuros e tez morena. Um cliente perguntou-me hoje se sempre fui morena. Por pensar que estava a gozar comigo (e se calhar estava mesmo), disse-lhe que não, que sou naturalmente loura mas que me apeteceu pintar o cabelo de escuro. Percebeu que estava a brincar e rematou com um “É que tem uma cor de cabelo e de pele tão bonita”.
Ora posto o facto de a maioria das mulheres portuguesas serem como eu, sou levada a pensar que o homem deve ter uma trabalheira imensa a dar esta cantada a todas as mulheres que encontra na rua.
Nada de mais, mas foi patético. E, só por causa das coisas, já foi para a minha lista negra.
É que ainda por cima, com tanto frio e com uma noite mal dormida, hoje não foi dos meus melhores dias.




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2004-12-15

De visita 

E pronto, parceira de malas prontas e pé já no avião rumo ao calor de Fortaleza e eu que me aguente com o cauchu.
Para que não me esqueça dela deixou-me aqui em casa o Freud, o cão da Mariana. Pobre cachorro que tanto cheira a cadeira onde esteve sentada e a porta por onde saíu a sua dona.
Olha-me como quem não sabe o que está a fazer nesta casa estranha, aceita fugidiamente uma festa e procura de novo a porta.
Quando a sua dona voltar já ele se terá habituado a nós, suponho.
O pior vai ser a minha filha que, imagino, me irá dar cabo da cabeça para ter também um cão dela.
A gente mete-se nestas alhadas e depois tem de sair delas, né?




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2004-12-14

Fortaleza, me espera aí, qu'eu já tou indo! 

Pois é, pois é, começou a chover, o frio tem-se acentuado de dia para dia, os cobertores parecem não chegar para aquecer a cama, e saimos encasacados, de cachecol, de botas, de guarda chuva e todos os apetrechos necessários para o Inverno que está prestes a chegar. O pingo do nariz exige uma reserva de lenços de papel na mala atafulhada de todo o tipo de objectos, como as luvas claro está.

Reservei alguns dias das minha férias para gozar no final de ano, no aconchego do lar e não é que subitamente, tudo se alterou?

Brasil, aí vou eu, cara! Sentar a bundinha nas esplanadas, bebendo caipirinha à beira mar, de biquini vestido, e sorrindo, lembrando-me dos meus colegas e amigos, a tremelicar com o frio, e enviando algumas mensagens partilhando os 35 graus de temperatura com os que ficaram de chapéu de chuva... porque os amigos são para as ocasiões, ou não é? A mala vai vazia, portanto já está feita, na ânsia de trazer lembranças e tudo o que me apetecer (e puder), e para que não falte o espaço, já está mais um malote à porta, apenas com uns pares de chinelos de enfiar no dedo e umas sandálias.

Fortaleza é o destino. Com praias maravilhosas, segundo dizem, com muito para visitar. Com muito sol, muita areia, muita água de coco para beber. Algum bronze para fazer um pouquinho de pirraça aos que ficam aqui no frio.

Portanto, meus amigos, vou ausentar-me para o Nordeste brasileiro.

Um Natal muito feliz. Eu vou dar um beijão no Papai Nöel por vocês se o encontrar lá pelas praias, de calçãozinho e t-shirt, valeu?





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O sismo 

O país tremeu ontem e aqui me confesso: a culpa foi minha.
Eu explico.
Fui a Tribunal ontem como testemunha de um amigo que se meteu em apuros sem saber bem como. Depois de me passear pelas lajes do tétrico Tribunal, lá veio a menina dos óculos grossos chamar-me. Segui-a com os passos que me são característicos e que fazem estremecer os móveis lá de casa e destrambelham os nervos dos vizinhos de baixo, seja em casa seja no escritório.
Deixei o chão de pedra para pisar o chão de madeira, mas nem isso atenuou a força da natureza que é o meu modo de andar. Eu entrei na sala de audiências e o país tremeu.
Qual jangada de pedra! Qual pedrinha lançada ao chão em Tóquio!
Em guarda!, que os meus saltos altos andam na rua!




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Avô Pratas 

É lugar comum dizer que só damos valor às pessoas quando nos faltam. Não é sempre assim. Muitas vezes reconhecemos o valor dessas pessoas e apenas pecamos por não lho dizermos.
É o que se passa com o nosso colega Pratas que, esperamos, tenha forças e alento para nos ler em casa.
O Pratas é o nosso colega mais velho. Já teve direito a alguns posts neste blog por ser uma figura tão característica, pelos seus famosos pontapés na gramática, pelo seu bigode, pelas gaffes, por não perceber o pontapé por debaixo da mesa, por pegar no entrecosto como uma madame que pega graciosamente na sua chávena de chá. Mas o Pratas é muito mais do que isso. É um profissional de mão cheia, do alto dos seus 70 anos. É um homem bem disposto e generoso, disponível e companheiro, amigo incondicional.
Adoptámo-lo, a Flor e eu, como nosso avô depois de fazermos contas e de lhe mostrarmos que sim, que poderia sê-lo.
Estas duas netas se, por um lado, lhe dão vontade de adiar a reforma e de continuar a aceitar abusos que nenhuma outra pessoa, no seu lugar, aceitaria, em termos do trabalho que lhe é pedido, por outro lado, dão-lhe cabo da cabeça. Uma é doce, carinhosa e infalível. A outra tem mau feitio e é fria e directa quando não lhe apetece aturar tretas. Uma aceita-lhe o beijo matinal a outra desatina com um breve toque no ombro. Uma aceita os elogios que faz de boa vontade, a outra passa-se com um olhar mais fixo. Uma fá-lo sorrir, a outra deixa-o ir muitas vezes para casa de cara amarrada.
Mas ambas nutrem por ele uma ternura imensa, uma ternura de netas para avô e mantêm uma relação de carinho, respeito e cumplicidade onde poucos mais entram.
O Pratas está doente. Está em casa. De baixa, pela segunda vez na sua já longa vida. Sentimos-lhe a falta. A casa e a mesa do almoço estão vazias. Nós estamos apreensivas. Queremos que volte depressa.
As melhoras, avô Pratas.




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2004-12-13

O regresso 

Voltar de férias é sempre estranho. A readaptação aos horários exigentes, às corridas matinais para os transportes públicos, à criança quase arrastada pela mão que, felizmente, vai cantarolando e rindo, ao café engolido em vez de saboreado, a secretária que nos aguarda, mais cinzenta do que quando a deixámos (mas isso talvez se deva à balda da senhora que a devia ter limpo e que aproveitou as minhas férias para não o fazer).
Cheguei cedo, enfiei-me no meu gabinete e ainda não vi nenhum dos meus colegas.
Daqui a pouco isto já não é nada. Habituo-me mais depressa ao trabalho do que às férias, e estas foram bem curtas, os derradeiros dias do ano.
A gente volta e, apesar de encontrar o agrafador e o furador mais ou menos no mesmo sítio, sabe que tem o país em reviravolta com uma Assembleia dissolvida, um primeiro-ministro em rota de demissão e um salão de baile que se ajeita para mais uma dança de cadeiras.
Just another monday.




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2004-12-09

As gavetas de um coração 

O nosso coração é assim: uma caixinha de surpresas. Tal como nós.

Todos somos diferentes, sentimos e vivemos de formas diversas. O que para mim pode parecer algo muito grave, para outros, é apenas um precalço que se ultrapassa com um pontapé numa pedra a mais no caminho.

Tenho aprendido nestas três décadas de vida a medir as minhas palavras, a avançar devagar para não tropeçar e não me magoar na queda. O medo desmedido de não me poder levantar, tornou-me um ser humano mais cauteloso. Olho por vezes para os dias de ontem e aprendi a não sentir saudade, aprendi a guardar nas pequenas gavetas do meu coração as lembranças, as mágoas, os momentos bons e os maus, de forma mais ou menos organizada. Se é que se pode organizar um coração. Há sempre aqueles momentos em que surge repentinamente um vendaval e tudo se mistura, tudo esvoaça, tudo se baralha, deixando o caos, a necessidade de uma nova arrumação.

Também nas relações humanas assim acontece. Os meus amigos, os tais que se contam pelos dedos de uma mão, foram escolhidos ao longo dos anos, a amizade foi-se cimentando com o convívio, a confiança foi adquirida com o partilhar de experiências, com o silêncio, com as confidências.

Também nas amizades é essencial saber com quem falar, esperar o momento oportuno, ter vontade de falar e ter a certeza que ninguém nos pressiona a dizer o que não queremos, ou não não nos apetece. Tenho essa sorte, de me ter rodeado de pessoas que respeitam o meu espaço, que me ouvem quando expludo, assemelhando-me a um vulcão em ebulição, as palavras atrapalham-se, as ideias baralham-se. Mas eles estão lá para todos esses momentos.

A amizade é para mim um conceito muito restrito, talvez porque tenha crescido como uma menina tímida, introvertida, com dificuldade em abrir o meu coração, em falar do que é meu, em partilhar os meus sentimentos, os meus medos. Também ao longo dos anos consegui reservar uma gavetinha no meu coração para essa menina que se foi modificando ao longo dos anos. E renasce de quando em quando, manifesta-se em certas situações que a vida vai impondo no seu complicado trajecto.

Os meus olhos brilham quando sinto manifestações de carinho, de amizade, de ternura até. E penso que é bom sabermos que não caminhamos sózinhos, mesmo que em silêncio, temos aqueles amigos com quem contamos, que nos dão a mão quando procuramos companhia, mesmo sem o denunciarmos.

É bom conhecermos a amizade e criar laços. Laços fortes, quase nós, que dificilmente são cortados, porque a amizade também ela tem de ser cultivada, preservada, guardada a sete chaves numa das gavetas mais importantes do nosso coração.





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2004-12-06

Cemitério de afectos 

Este tema só despertou em mim por o ver abordado no Notícias Magazine, porque é mesmo de cemitério que se trata –e eu, mesmo os meus mortos reais, não os visito nessa sua derradeira morada-, ainda que seja um cemitério sem flores nem saudade.
Pela nossa vida vamos procurando e, pontualmente, encontrando aquelas pessoas que julgamos personificar o amor de que se precisa para se respirar fluentemente. Não direi os mais sortudos porque em boa verdade não acredito que o sejam, mas alguns de nós acertam à primeira, ou não se dão ao trabalho de procurar melhor, não sei bem. Outros de nós enganam-se sucessivas vezes.
Nesses enganos, em cada um desses enganos, há uma parte de nós que se entrega, que se molda, que recebe, que acredita, que quer, que aceita. A relação dura enquanto pode e após terminar, de mútuo acordo ou não, fecha-se a gaveta. Ou assim deveria ser. Esse amor, quando o foi verdadeiramente, não pode transformar-se em nada senão numa gaveta fechada. Assim como quando começámos por ser pobres, depois enriquecemos e voltámos a ser pobres. Já não conseguimos aceitar a pobreza como a aceitávamos antes de conhecer algo melhor. Com os amores é a mesma coisa. Não podemos voltar a ser amigos de quem, em determinado momento, foi mais do que isso.
Essas pessoas, a quem nos entregámos, que com amor recebemos, deixam de ter lugar na nossa vida. Não existe uma arrecadação onde, salutarmente, as possamos guardar.
Presume-se que, entre pessoas civilizadas, a relação de amizade se mantenha, até porque os amigos, os interesses, os hábitos continuam a ser os mesmos. Mas isso é, se não outra coisa mais inqualificável, um total desrespeito pelo amor que sentimos.
Nunca me pesou rasgar folhas da minha vida passada, rasgar fotografias e cartas, números de telefone e bilhetes de cinema gatafunhados. Até as memórias, que essas só existem enquanto as fizermos perdurar. É assim que temos espaço para recomeçar. É assim que faz sentido. É assim que pode ser.
Como podemos recomeçar o processo da entrega se parte de nós está ainda na memória dessa outra história? Como podemos ter a vida ordenada se abrimos uma gaveta sem termos fechado outra? Quem se entende em tamanho caos? Cada gaveta aberta tem um mundo lá dentro. Um mundo que não podemos renegar porque faz parte de quem somos. Mas quem somos hoje, ainda que resultante do que fomos ontem, não quem fomos ontem misturado com o que somos hoje.
Os afectos gerem-se com dificuldade, exigem alguma perícia mas, acima de tudo, exigem uma entrega total. Por isso não é na Terra do Nunca que devemos arrumar as chaves das gavetas que fechámos; é na Terra de Ninguém.




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2004-12-03

A queda  

Adeus, Governo mau! Venha outro... não melhor.
Infelizmente é assim. Saltitamos entre o PS e o PSD cujos líderes são sempre os mesmos narcisos. E antes falasse de flores.
Jorge Sampaio decidiu, o Santana ficou mal disposto, o Sócrates, sem nunca ter pedido a demissão do Governo, ganhou-o, assim se crê, de bandeja.
Nós continuamos assustados com as listas; as listas de espera na saúde, que não ficaram mais curtas, as do número de desempregados e de empresas que fecham, muitas sem se preocuparem em saldar as últimas contas com os trabalhadores, as nossas listas lá de casa de compras a fazer no supermercado, as da escola com material escolar para as crianças, já para não falar da lista de presentes de natal. Continuamos a ficar com as carteiras vazias antes do fim do mês enquanto assistimos à dança de cadeiras de quem nos quer (des)governar.
Santana Lopes, que ascendeu à cadeira de primeiro-ministro sem saber como, como na tal história da tartaruga no poste, deixa-a com um historial de péssimas medidas, desastrosas decisões, total desconhecimento de processos, gastas desculpas, nenhuma glória de ter mandado.
Dizemos-lhe adeus sem saudades e já temendo o senhor que se segue.
Para prenda de natal, está mal. Para nosso futuro é assustador. E, neste ponto do caminho, só dorme bem à noite quem anda cansado, muito cansado de se manter à tona de uma água sempre revolta e onde, a cada braçada, tem de se defender de mais um obstáculo.
Temo quando penso na minha filha a crescer para estes dias que só tendem a piorar.




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2004-12-01

Nocturno 

Sabe assim a descanso do guerreiro revestido de lugar comum, mas o prazer é sempre imenso.
Depois de mais um dia de trabalho, casa aceitavelmente limpa e arrumada, Cinderela e outras
histórias revividas com a princesa cá de casa, encostei-me, por fim, à janela, quase descansada, a fumar um cigarro, a beber vinho branco num copo de pé alto e vi a chuva. Os carros passam espaçadamente na avenida e a chuva bate no mármore da varanda, salpicando-me os pés. Gosto. E mereço. Ando cansada. Estou cansada há muito tempo. Alenta-me a esperança de um dia poder usufruir de mim e das pessoas que amo com toda a disponibilidade que merecem.
Agora entra o frio no quarto onde escrevo. E ouço a chuva e os carros. Passeio os olhos pelas paredes em volta e consolo-me com as fotografias nas paredes, com os livros, com os velhos discos de vinil. Ouço a minha filha voltar-se na cama e comovo-me. Vale-me ainda a facilidade com que me comovo, por contraponto à frieza dos dias e das pessoas que, como eu, os habitam.
Não somos felizes no mundo que criámos. Mas temos a felicidade possível e alimentamos o sonho de o sermos sempre um pouco mais. Sem resignações nem ilusões. Com escapes pontuais e realizações fugidias.
Não estou inquieta hoje. Apenas cansada. Tremendamente cansada.




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2004-11-30

Mulheres, mães, trabalhadoras... e falta de tempo 

Há fins de semana que finalizamos completamente frustradas. Assim foi o meu. Os planos que traçara para Sábado, foram subitamente alterados porque uma colega entrou de baixa. Para facilitar um outro colega, vim cumprir o horário dele, entregando a minha filha na casa de uma amiga dela, onde acabou por passar o dia. Começou a correria lá por casa, para arrumar o que estipulara, as horas a passarem em flecha, atrasada para ir buscar a pequena e completamente stressada num sábado à noite.

Domingo não foi melhor. Chovia, a roupa acumulada para secar. E subitamente a máquina de lavar resolve avariar. Da sala chega uma voz fina a pedir ajuda para os trabalhos de casa e a paciência esgotada, os nervos à flor da pele e a roupa para passar a ferro.

Já sentada na cama da minha filha, depois de a adormecer com uma história, olhei-a, no seu sono calmo. Pensei que o tempo que passamos com os nossos filhos é demasiado curto, a disponibilidade para os acompanhar é minima. Sobretudo, nós, mulheres somos sobrecarregadas, salvo raras excepções. A nossa emancipação como trabalhadoras, rouba-nos o tempo que deveria ser primordial em relação aos nossos filhos. Portugal é dos paises onde as mães passam menos tempos com os filhos, não usufruem de qualquer regalia como mães, ao contrário do que acontece noutros países.

E quando os filhos adoecem, e temos que ficar a cuidar deles, tarefa quase sempre atribuida às mães, nem sempre os patrões compreendem a necessária assistência à familia.

Já deitada na minha cama, cansada, stressada, frustrada por ter passado dois dias mais atribulados que os da semana decorrida, pensei que o melhor da nossa vida são as crianças, amamo-las tanto, e ao mesmo tempo damos prioridade à casa, às arrumações, às limpezas, enquanto reclamam, com razão a nossa presença, que recusamos tantas vezes, na tentativa de nos desdobrarmos em duas ou três.

Por isso não passei a ferro e adormeci a minha filha com uma história, lida e relida vezes sem conta, enquanto, quase de olhos fechados me dizia: mãe, temos que arranjar uma empregada, para poderes ter mais tempo para brincar comigo...





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A morte chega sem aviso prévio 

União de Leiria / Benfica, um jogo que se realizou no passado Domingo. Um jogo que seria igual a tantos outros, se não fosse marcado pela queda de um adepto das bancadas, provocando uma morte trágica. A juntar a tantos outros acidentes nos nossos estádios.

Mas ontem, para nós, não era apenas mais um número, tratava-se de alguém conhecido. Alguém que conheciamos há bastantes anos, dono de um restaurante onde almoçávamos com alguma frequência, que no Verão confeccionava as melhores caracoletas assadas aqui da zona. O Germano. Que nos tinha recebido na sexta-feira com o seu sorriso habitual, e nos tinha servido um bife à casa.

De repente, já não era um anónimo, era alguém cuja familia conhecemos, um homem que completava nesse dia 45 anos, que vivia a emoção de um jogo que acabou por lhe ceifar a vida de uma forma estúpida, deixando-nos incrédulos, com dificuldade em acreditar que aquele corpo estendido no chão era do Germano.

Pensamos na morte nestas alturas, pensamos que se existe um ser superior a nós, porque o levou na flor da idade, quando ainda tinha tanto para dar e duas filhas para acabar de criar? Mas a morte não tem explicação, surge de repente em tantas ocasiões, da forma mais abrupta, mais inesperada, deixando um vazio insustentável, dificil de aceitar.

Até sempre, Sr. Germano.





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2004-11-29

Tendências 

Hoje um amigo disse-nos que, após algum tempo sem visitar o nosso blog, tirou alguns minutos do passado fim de semana (provavelmente por já não poder ver tanto Congresso na televisão –as nossas desculpas ao visado por tal dedinho político aqui espetado sem pedir licença, já perceberão porquê), decidiu actualizar a leitura do nosso modesto blog. Que é mesmo modesto, não tem pretensões a grandes análises ou a grandes tiradas literárias; serve para sacudirmos o pó de pneu que se nos vai acumulando no cérebro e isso já nos alivia.
Mas então o nosso amigo dizia-nos que saíu da leitura um pouco desiludido. Muita política, disse ele, e de esquerda.
Nós até sabemos que ele é assim para o alaranjado, mas estará o nosso blog a ficar vermelho, apesar do seu template em tons laranja? Fui analisar. Revi os posts do último mês. De cerca de trinta posts apenas encontrei quatro que poderiam ter melindrado a sua tendência social democrata. Os restantes são correr de tinta, excertos e até tretas.
Sabemos que tudo o que fazemos é política, mas nem vou seguir por aí. Aceitando que ele rotulou como políticos os posts com claras referências ao PCP, ao PSD ou ao Bush (ou será que também contou os do Arafat?), não chegam a meia dúzia. Entre trinta, estes tê-lo-ão incomodado assim tanto? Aparentemente, sim.
Os nossos posts são aquilo que somos, resumidamente. Aos poucos. O nosso modo de ver o mundo, nem sempre igual para as duas, é o que aqui se reflecte. A isso não podemos nem queremos fugir.
Então, mas se nós, tão timida e discretamente, assim incomodamos, somos levadas a concluír que quem fala e age com afinco, com determinação, com mais talento e sabedoria do que nós, meras operárias do cauchu, afinal vai agitando a malta. E como o que faz falta é agitar a malta...




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2004-11-27

O congresso do PCP 

Começou o congresso do PCP. Mesmo aqui à porta de casa. Passei por lá e vi a avenida embandeirada de vermelho, as pessoas com frio, cá fora, fumando um cigarro e conversando animadamente, pelo menos a julgar pelos movimentos de braços, pelos sorrisos de reencontro, pelas vozes que chegam aos nossos carros que passam ao lado, pela movimentação em geral.
À minha frente circulava um carro cujos condutor e ocupante abriram o vidro no frio do fim de tarde e de punho fechado e erguido gritaram palavras de solidariedade para quem está presente nos trabalhos. Sorri e pensei que, mais do que o natal, nas suas solidariedade e boa vontade pontuais, o ideal comunista aproxima as pessoas, e, instantaneamente, lembrei-me da Festa. É este o espírito. Ser-se comunista é um bonito modo de estar na vida.
Assim o congresso não nos desiluda e trace um caminho cauteloso, coerente e sim, renovador, dentro do ideal defendido por um partido com uma história pesadíssima.




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2004-11-25

Perdas de tempo 

Pois, é absurdo, eu sei. Mas aparentemente consegue escrever-se um livro de 233 páginas, enchendo-o de uma série de (pre)conceitos como os exemplificados (ainda por cima em português do Brasil; ainda por cima sexista; ainda por cima... absurdo):

Título do livro " PORQUE OS HOMENS FAZEM SEXO E AS MULHERES FAZEM AMOR? "

" As mulheres se admiram como um homem que estaciona o carro em uma vaga apertada só olhando pelo retrovisor não sabe onde fica o ponto G. "

" Se uma mulher está dirigindo e se perde, pára e pergunta. Para o homem, isso é sinal de fraqueza. Ele roda em círculos por horas, resmungando coisas como 'estamos chegando'."

" Minha mulher consegue enxergar um fio de cabelo louro no meu casaco a cinquenta metros de distância, mas sempre esbarra na porta da garagem quando guarda o carro".

" A mulher conhece as esperanças, os amigos, sonhos, romances e medos secretos de seus filhos. Sabe em que pensam, como se sentem e, geralmente, que travessura estão planejando. O homem mal percebe aquela gente miúda que mora na mesma casa que ele. "

" Os homens costumam escolher cartões com mensagens bem longas. Assim, sobra menos espaço para escreverem".

" Primeira regra para se comunicar com um homem: seja objectiva! Dê-lhe uma coisa de cada vez para pensar ".

" A mulher não tem senso de direcção, mas o homem nunca encontra as meias na gaveta".

" Se a mulher está infeliz no relacionamento, não consegue se concentrar no trabalho. Se o homem está infeliz no trabalho, não consegue se concentrar no relacionamento".

" Para fazer sexo, a mulher precisa de motivo. O homem precisa de lugar".

" A mulher quer muito sexo com o homem que ama. O homem quer muito sexo."

" O que os homens procuram : personalidade, boa aparência, inteligência, humor, corpo bonito. O que as mulheres pensam que eles procuram: boa aparência, corpo bonito, peito, bunda, personalidade "

" Todo homem tem a fantasia de fazer sexo com duas mulheres ao mesmo tempo. As mulheres gostam da ideia. Pelo menos, teriam com quem conversar depois que ele pegasse no sono ".

" O homem prefere esperar pela mulher ideal, mas, com o passar do tempo, só o que consegue é ficar mais velho ".

" Depois de casado, o homem sabe tudo sobre sua mulher. Então, para quê conversar?"

E este livro tem 233 páginas.




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2004-11-24

É pró menino e prá menina 

Praticamente em primeira mão, e porque sei que ninguém vai contar à minha filha, aqui anuncio que comprei para lhe oferecer no natal um homem aranha. É claro que não será este o seu presente, o grandalhão, digamos, e é claro que eu não gosto especialmente do homem aranha. Também não é para eu brincar, é facto.
A questão é que depositei nas traquinas mãos da minha filha um desses catálogos de supermercado para que escolhesse o que mais gostava de receber pelo natal. Depois de pouca (pouquíssima!!) parcimónia na escolha disse-me que gostava que um dos seus primos recebesse um homem aranha já que o homem aranha é brinquedo de menino.
Ora eu que aplico muita da minha energia a tentar que cresça sem preconceitos, não podia deixar passar em branco esta falha. Então há certos brinquedos que só podem ser para menino ou para menina? Não pode ser. Então hoje, por brincadeira (e por um certo princípio), lá lhe comprei um. A rapariga dos embrulhos estranhou o laço cor-de-rosa, mas os adultos também podem ser (re)educados.
Acredito que o somatório destas pequenas coisas ajudam na formação dos adultos que serão estas crianças. Se crescerem a pensar que há brinquedos próprios para cada sexo, far-lhes-á sentido que haja tarefas, trabalhos, atitudes e modos de estar próprios para cada sexo. E as mulheres continuarão a ter de provar muitas mais qualidades para ocuparem os mesmos cargos que os homens; eles continuarão a ajudar nas tarefas domésticas em vez de as partilharem; elas continuarão a ser uma espécie de prolongamento das mães deles; eles continuarão a acreditar que o choro é coisa de mulheres; e por aí fora.
Parece exagero, mas reparem que são estes pequenos conceitos que abrem espaço a outros maiores e proporcionalmente mais graves.
Então a Carolina terá o seu homem aranha ainda que alguém tenha a triste ideia de lhe oferecer mais uma barbie (para mais tarde lhe dar cabo da cabeça pensando que tem de ser ultra magra para poder ser gira) para fazer companhia ao super-herói. E se me pedir um carrinho ou um camião também lho dou, assim o orçamento o permita.
Ela até sabe que o pai natal apenas faz o transporte e distribuição das prendas, que são a família e os amigos quem conta os euros para poder comprar as prendas aos meninos, aqueles que as podem receber (o resto da verdade virá a seu tempo, que ainda tem espaço para acreditar em fadas).
E com tudo isto, começou a loucura do natal.




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2004-11-23

Do hino do PSD 

O PSD, numa tentativa(?) de renovar a sua imagem perante os seus militantes e perante nós, que assistimos incrédulos ao seu desempenho enquanto Governo, criou e adoptou um novo hino para si. Nele salientam-se as incongruências, a falta de estética, a falta de qualidade literária em geral, a referência ao presidente do partido obrigando os seus militantes a idolatrarem Santana Lopes sempre que lhes seja pedido que o cantem, entre outras coisas de que, certamente, me lembrarão.
Mas faz-nos também pensar que, na medida em que um hino pretende prestar homenagem ao seu objecto e, de algum modo, retratá-lo, este partido, mais importante, este partido agora governante, perdeu toda a sua lucidez.
Ora leiam e depois desmintam-me, se fôr possível:

Somos actores da história
de coragem e de glórias
pátrio orgulho do passado
abraçado pelo mar.

Para vencer os desafios
desse povo soberano
abre a porta ao destino
que o futuro quer entrar.

Queremos mais Portugal
grande luso pequenino
nova força para o mundo
geração Portugal.

Grita Viva Portugal
pede a alma, bate o peito
nova força para o mundo
meu orgulho Portugal.

Tempo novo de acreditar
de ser mais feliz
de ser PSD
sempre mais e melhor.

Santana Lopes é a voz
na vanguarda do futuro
de norte a sul
de todos nós.

Grita Viva Portugal
meu orgulho, meu país
nova força para o mundo
Grita Portugal!





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2004-11-22

Excertos dispersos (1) 

"Deixei de chorar há muito tempo, quando as dores no corpo me começaram a doer mais do que as outras. É que, sabes?, chorar faz doer o corpo. A dor começa, aguda, nas mãos, na base do polegar. Depois sobe pelos braços, enrola-se na garganta e começam as convulsões. Então choramos, ou melhor, vertemos lágrimas, que todo este processo é já o pranto, em si mesmo.
Depois das lágrimas chega a dor generalizada. Todo o corpo te dói, como se estivesses a ressacar. Só em alguns momentos perdura o efeito do pós-orgasmo, mas são tão raros que não valem o risco.
(...)
Acima de tudo, dói-te. E ficas cansada. E envergonhada. E sentes-te patética, quer tenhas chorado sozinha ou o tenhas feito na presença de alguém.
Chorar é sempre embaraçoso. Como embebedar-nos. Sabes que fizeste figuras tristes, que te descontrolaste, mas não sabes muito bem como o fizeste.Como numa ressaca, o pior é sair desse estado, sair de novo para o sol.
Por isso deixei de chorar há muito tempo. Agora apenas encolho os ombros. Não me envergonho nem incomodo ninguém.
Além disso, chorar não é tão libertador como dizem. Deixa-te os olhos fundos, a boca descaída, as mãos frias.
Por isso encolho os ombros. Não te parece melhor? Bebes mais um copo, fumas mais um cigarro e, de óculos escuros, olhas o sol de frente e mostras-lhe o teu dedinho do meio."




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2004-11-19

painatal@sapo.pt 

Pronto, já decidi. Vou juntar-me às iluminações precoces e depois de tantos pedidos da minha filha, vou amanhã fazer a minha árvore de natal. Vou dar uma outra luz à minha casa. Não sei como é que o Freud, o caniche bebé que anda lá por casa, vai reagir a mais uma coisa nova, ainda por cima cheia de bolas, com que ele adora brincar... Oxalá não pense que seja uma árvore a sério e ouse levantar a perninha para um xixi, pensando que a rua veio até à nossa casa...

Isto do Natal é um delirio para a criançada. Circulam por todo o lado revistas de brinquedos, livros de encantar, bonecas que andam, choram, gatinham. Jogos e play stations, etc, etc. A minha filha já decidira: queria um cavalo a sério, estando convicta de que era possível. Depois de muita conversa, agarrou-se a uma dessas maravilhosas revistas, sentou-se frente ao computador e fez a lista dos presentes, com os respectivos preços. E chamou-me: “mãe, já sei o que quero, vem ver.” Contas por alto somava 700 euros e eu fiquei azul. Segui o conselho da minha companheira de blog e inventei um endereço: painatal@sapo.pt. E disse-lhe: vais escrever para o pai natal, a pedir o que queres, e ele vai ver o que ele tem lá para te dar. Pareceu resultar. Lá se empenhou novamente a escrever, começando assim: “pai natal, eu quero muitas prendas, mas como a minha mãe não tem dinheiro para tudo e não me pode comprar o cavalo, vê lá o que é que me podes dar” - isto claro está, por outras palavras, aqui e ali uns erros, próprios de quem ensaia os primeiros textos, acrescentando os preços para o pai natal fazer contas ao orçamento. Só espero que este endereço não exista e não apareça lá por casa uma camioneta a fazer entregas ao domicilio, exigindo o respectivo pagamento.





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Bandeira rubra 

"Bandeira Rubra" é o título de uma canção muito ouvida após o 25 de Abril. Guardei-a na memória, como muitas pessoas, imagino, mas apenas o refrão. Esqueci a letra, entretanto. Tenho-a procurado na internet, entro em todos os fóruns a pedir a letra mas, curiosamente, não tenho encontrado quem a saiba na íntegra. Até hoje.
Agora, para que fique disponível a quem a procure ou a queira conhecer, aqui a transcrevo.

Avante povo
Com sangue novo
Bandeira rubra
Rubra bandeira
Avante povo
Com sangue novo
Bandeira rubra
Triunfará
BANDEIRA RUBRA DEVE TRIUNFAR
E VIVA O COMUNISMO P'RA NOS LIBERTAR

Nas oficinas
Dentro das minas
Estão os que esperam
E desesperam
Vamos agora
Está na hora
Bandeira rubra
Triunfará
BANDEIRA RUBRA DEVE TRIUNFAR
E VIVA O COMUNISMO P'RA NOS LIBERTAR

Sem inimigos
E sem fronteiras
Estamos unidos
Rubra bandeira
Ó Proletários
Daí a resposta
Bandeira rubra
Triunfará
BANDEIRA RUBRA DEVE TRIUNFAR
E VIVA O COMUNISMO P'RA NOS LIBERTAR


(Gravação disponível em EP editado pela Metro-Som, da Moviplay)





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2004-11-18

A rampa do macaco 

Todos nós, que circulamos diariamente ao volante de um automóvel, deparamo-nos, invariavelmente com as infindáveis filas de trânsito, logo pela manhã, ainda meio ensonados, e à tarde, a história repete-se, agora já stressados.

E que fazer então, quando estamos parados nessas filas?

Já tenho assistido a um pouco de tudo. Senhoras a pintar as beiças, homens a barbear-se, muita gente a ler, outros a apreciar o panorama, muitos a dormir, e nada disto me choca em demasia. Consigo até esboçar um sorriso. Eu própria, nesses minutos mortos, aproveito para limpar o tablier do carro, recolher os brinquedos que a minha filha teima em transportar diariamente para o carro, esquecendo-se deles depois.

Mas na rampa do macaco tudo é diferente. Esta rampa é uma subida da Amadora até ao Pendão. Assim a baptizei por uma razão especial, porque diariamente, a fila mantem-se bastante tempo parada e, como pouco mais há que fazer, vou distraidamente olhando para os carros ao meu lado. Constatei então que carro sim, carro não, e em certas ocasiões, carro sim, carro sim, os condutores entretêm-se a “limpar o salão”, ou seja, metem o dedinho no nariz, ora numa narina, ora noutra e toca de sacar o que está a mais: os macacos. O pior de tudo isto, é que há maneiras de se livrarem deles, para todos os gostos:

Meus amigos, tudo isto é verdade. Inacreditável, não é?

Basta passarem pela rampa do macaco entre as sete e as oito horas da noite e constatarem que não é ficção. Tudo ao estilo português...





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Abóbora cristalizada 

Há gostos para tudo, dizem-me. Mas não me importo. Quero lá saber do que dizem enquanto no aconchego de minha casa ou no desassossego do escritório vou trincando avidamente, como quem come pão com manteiga ao lanche, as minhas barrinhas de abóbora cristalizada.
Há lá prazer gustativo maior! Há lá chocolate que a substitua! O açúcar estaladiço por fora, a frescura e macieza por dentro, a cor de topázio, tudo se alia para um prazer sublime, superlativo, inigualável.
Resisto com dificuldade sempre que vejo estas simples embalagens nas prateleiras dos supermercados. Mas resisto. O pior é quando passo por essas lojas que vendem café, bombons, marmelada, doce de gila ou avelãs, avulso. É que na montra nada mais chama a minha atenção de modo tão desastroso como a abóbora empilhada que adivinho a engrossar-me a saliva, a derreter-se nos meus dentes, a colar-me os dedos. Escolho as barras, as mais finas, em forma de paralelepípedo, as mais claras.
Causa celulite, adverte a minha cara-metade, receando ficar com uma mulher disforme em casa. Mas eu equilibro isto com a dose de ruindade que me é imputada e que, dizem, não deixa engordar.
Comer abóbora cristalizada não tem as características de um vício em que, mais do que o prazer puro daquilo que se faz, se depende de qualquer coisa sem já a usufruir, por isso é tão reconciliador.
Sabe melhor no inverno, sem chuva. Assim nos dias como o de hoje. A acompanhar um livro ou um filme.
Vou comer a última de hoje.




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2004-11-17

Considerações de uma fumadora 

Hoje é o dia do não fumador. Os apelos multiplicam-se para que os que esfumaçam deixem de o fazer, para seu bem, da sua carteira e daqueles que os rodeiam.

Pela manhã ouvi na rádio que está em discussão uma nova lei para os fumadores. Acaba-se o cigarrito no café, no restaurante, na discoteca, no trabalho. Salvaguardando, no entanto que as empresas podem criar uma “sala de fumo” nas instalações, com a devida extração de fumo.

Eu sou fumadora. Aqui no expresso, somos apenas duas, tirando os bagageiros, que entre as montagens e desmontagens de pneus, lá vão esfumaçando uns cigarros.

Tenho consciência dos maleficios do tabaco, da maldita nicotina, das vezes que já tentei deixar os tais cigarros, das apostas feitas e perdidas. Ainda não consegui, confesso.

Seguirão todas as empresas esta lei (se aprovada)? Bom, nós aqui já elegemos há muito uma secção como sala de fumo, a mesma que serve para o café matinal, para o lanche da tarde, para os dois dedos de conversa. Podemos propor ao nosso maquinista que se junte a nós (já que a lei é para todos, não é verdade?) quando quiser fumar o seu charuto. A extracção não é das melhores, no entanto, o tecto, que a pouco e pouco tem cedido, fruto do mau tempo e dos anos, já cedeu o suficiente para deixar um buraco bem grande, por onde todos nós poderemos levantar a cabeça e para lá dirigir o fumo.

Trata-se de um pouco de ironia, eu sei, mas, e contra mim falo, não seria mais simples proibir o fabrico dos cigarritos e obrigar o pessoal a deixar de fumar, em vez de quererem inventar mais um cartão tipo multibanco para impedir os menores de dezoito anos de esfumaçar?
E o contrabando de tabaco, meus amigos? Terão de criar uma nova polícia anti-tabagica, paga à comissão, de papelinhos em punho para passar multas, sim porque elas vão ser pesadas, pesadonas... Estou já a imaginar os fumadores a esconderem-se pelos cantos, a dar umas passas à pressa, lembrando o nosso tempo de putos.

Será que nos ministérios, nos gabinetes dos nossos governantes, esta lei far-se-á cumprir? E os policias? Vão todos deixar de fumar, ou continuaremos a ser um país de corruptos, tirar-se-ão as multas com algumas cunhas influentes, algum comissário, de cigarro ao canto da boca a considerar se deve ou não fazer o geito, enquanto estende a mão por baixo da mesa?

Vou ficar-me por aqui com estas considerações que se poderiam alargar muito mais.

Vou mas é esfumaçar mais um cigarro... enquanto posso.





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Quedas & trambolhões 

Não, não vou falar dos trambolhões que damos na vida, daqueles enganos e desenganos, das feridas da alma. Vou falar mesmo de trambolhões, de quedas, dos tombos e escorregadelas que damos e dos quais desatamos a rir, aqueles que têm fair play.

Tenho assistido a alguns, e tenho sido vítima de outros. Já cheguei a cair de joelhos num degrau que todos os dias desço e subo, e que certo dia me esqueci dele, parecia uma pata, e depois, levantar-me? Apesar da dor e das anunciadas nódoas negras, desatei-me a rir. Nestas alturas parece que temos molas no rabo, olhamos em redor para saber se alguém apreciou a queda, e envergonhados, limpamos as marcas.

Pior do que isso é irmos a subir umas escadas a correr e tropeçar no primeiro degrau, aos pés de um homem que detestamos, asqueroso, gordo, fascista, que não faz um único gesto para nos ajudar, por falta de vontade ou porque a imponente barriga o impede. Aí então quase fazemos crer que caímos de propósito e mesmo que doa para caraças, dizemos que não foi nada.

Há aquelas quedas inexplicáveis, de alguém que está muito bem e de repente cai pura e simplesmente, dizendo que é normal acontecer-lhe isso. Dá vontade de rir (para alguns) e apesar de ser tão sinistro, rimos até às lágrimas.

Contaram-me uma queda engraçada. Em pleno Disney no Gelo, naquelas bancadas onde para entrarmos ou sairmos temos que fazer uma fila indiana, um jovem, de balde de pipocas em punho, facilitando a tarefa de uma criança, apoia mal o pé e eis que faz uma pirueta e caí desamparado nas cadeiras da fila de baixo. De pernas para o ar, o balde voa, provocando uma chuva de pipocas. Acho que se levantou mais depressa do que caiu...

Mas de todas os trambolhões a que tenho assistido, o mais elaborado, o mais divertido (depois de levantada a vítima), assisti eu “in loco”. Imaginem uma gaja gira, dez centimetros de salto, descendo umas escadas com o seu passo seguro, e de repente... zás! Um pé resvala, dá a primeira queda, segura-se ao varão, derrapa, faz um ou dois piões sobre si mesma, parecendo ter puxado o travão de mão, e só se vê cabelo e pernas pelo ar. Valeu-lhe ir outra pessoa à frente que lhe deu uma mãozinha. Lá se levanta a pequena, e desata a rir: “Vocês viram?”, apesar de adivinhar as nódoas negras que pela noite se deviam anunciar.

Rimos do mal, sabemos, mas dos outros e de nós também. Afinal quem não está sujeito a um trambolhão de vez em quando?





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Lisnave 

Não sei se é o cheiro dos velhos estaleiros. Não sei se é o rio, ali mesmo à espreita. Não sei se é a imponência da grua. Não sei se é a recordação dos operários saindo aos magotes, calças de ganga, vozes altas, rostos cansados. Não sei se é a imagem dos panos pregados à vedação, exigindo direitos e salário. Ou se é a memória das lutas aí travadas, as concentrações, as chaimites, os sindicatos, as cargas da polícia, os homens e mulheres que daí partiram para a ponte 25 de Abril e outra vez a carga da polícia. Não sei se foram os anos em que os meus pais não traziam dinheiro para casa e o meu pai ia para o trabalho de bicicleta para eu ir de autocarro para a escola. Não sei se foram as noites que passei sem ver a minha mãe porque dobrava os turnos. Não sei se são as amizades que ali nasceram. Ou se eram os barcos. Não sei se eram as festas de natal onde cantávamos que natal “é o fruto que há no ventre da mulher”. Não sei se era o cheiro a tinta ou a cor dos fatos-macaco. Não sei se eram os papões-família-Mello. Não sei se eram as excursões para entregar pelo país os brinquedos para parques infantis que os operários faziam quando a administração recusava trabalho. Ou se era o casaco amarelo que abrigava a minha mãe nas manhãs agrestes de inverno. Não sei se é passar agora pela avenida e ver os autocarros passarem sem parar pelo que parece ser uma cidade fantasma. Não sei se era uma sensação de segurança violenta e inesperadamente abalada. Não sei se é a juventude perdida dos meus pais. Ou a promessa de um sonho que afinal não o foi. Não sei se são os homens tristes. Ou as mulheres envelhecidas. Não sei se é a injustiça. Não sei se é o espectro do capitalismo. Não sei se é a história dos operários que aí morreram em acidentes de trabalho. Não sei se foi a preocupação de ouvir boas notícias do meu pai quando se sabia de mais um acidente. Não sei se são as histórias de amor e infidelidade. Não sei se é porque a comissão de trabalhadores dava aos filhos dos funcionários as prendas de natal que a administração não dava. Não sei se eram os óculos do meu pai sempre picados por soldadura. Ou as pernas da minha mãe queimadas pela água a ferver.
Não sei o que é. Mas sei que me ofenderá ver ali nascer um qualquer empreendimento para que morram os homens e mulheres que ali começaram por ser jovens.




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2004-11-16

Carta aberta ao menino jesus 

Há quem, por altura do natal, entristeça, entre em depressão, se entregue à nostalgia, eu sei lá.
Por mim, não tenho essa hipótese, ainda que a época significasse, para mim, mais do que uma entrega desenfreada ao consumo. Parece assim quase cinismo, não é? Mas com o passar do tempo o natal deixou de ter magia. Cresci, é o que é. Entre outras coisas. A minha pequena filha “obriga-me” a celebrar o natal, claro. Mas o apelo sentimental da época, perdi-o.
Ainda por cima, nesta altura, tendo a ter certos azares. Não sou supersticiosa, mas lá que os percalços escolhem esta época para me importunar, disso não haja dúvida.
Este ano é o gás. E uma misteriosa infiltração numa parede. Obrigada a todos os que tornaram possível o subsídio de natal porque assim já tenho onde recorrer para fazer face às tuas partidas, ó menino jesus tão galhofeiro.
Ou então, não é de azares que falo mas de... corrupção. Eu explico. Antes ainda de expirar o seguro de construção da minha casa (cinco anos), já me lanço para o terceiro esquentador. E não, não se trata de defeito de fabrico dos aparelhos nem de capricho meu em fazer compras. O que se passa é que foi emitida uma licença de habitação sem que estivessem reunidas todas as condições para que tal acontecesse. Ou seja, a extracção de monóxido de carbono não acontece porque alguém facilitou onde nunca poderia ter facilitado. Então, para libertar os 175 ppm provenientes do esquentador cá de casa, em vez dos 49 aceites como seguros, resta-me a janela que devo manter de par em par nestas noites tão amenas (!!). Eu sei que o advogado do construtor é casado com a advogada da Câmara e que isso invalida, à partida, qualquer processo judicial, mas é legítimo que isso nos coloque em perigo, cá por casa? Ou que tenha de esperar que a minha filha saia da cozinha para poder abrir a água quente?
A infiltração poderia ser só um azar, também. Mas não é. Resulta do refluxo provocado pela acumulação de monóxido de carbono não extraído pelo esquentador.
E pronto, começo a habituar-me a direccionar o meu subsídio de natal para a compra de esquentadores, que sempre são mais úteis do que castelos ou Fadas Sininho, mas que não fazem a minha filha sorrir tanto e deveriam durar uns anitos mais. E afinal, vou carregar o empréstimo para a casa durante uns bons anos, e não é assim tão pouco.
É isto o que temos, mas não é isto que merecemos nem sequer o que queremos, ó menino jesus adormecido.




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2004-11-15

Fungagá da bicharada 

Lembram-se do Fungagá? (Não, não estou a falar dos tempos que correm...) O velho disco do José Barata Moura (sim, tenho-o autografado!!), com canções infantis, daquelas tão bem feitas que à medida que crescemos e o continuamos a ouvir, conseguimos ir descobrindo as mensagens "subliminares" que as líricas contêm.
"O Manel tinha uma bola" e "Era uma vez um rei" não fazem parte do disco, mas fizeram parte dos primeiros dias de vida da minha filha, por terem feito parte da minha. Depois conheceu as outras e aprendeu-as. Enquanto eu as revivia.
Agora foi o momento de as (re)visitar(mos). No fim de semana lá rumámos nós em direcção ao Teatro da Trindade, de mochila abastecida, mãos frias e brilho nos olhos. Depois de se sentar ao lado do homem de lata (tenham paciência, mas no seu imaginário cabe o Feiticeiro de Oz, não o Fernando Pessoa), os sentidos estavam despertos para o teatro.
À Cidade do Penteado (lembram-se desta?) chega uma família de artistas numa roulotte transformável em palco, pronta a apresentar-nos as suas filhas Joanas, o seu filho Manel, a avó Insulina e o barrigudo rei que aí reinava. Pelo meio as palmas, o espanto, o sorriso, as cantorias das crianças, o ar ameninado dos adultos, saudosos, enquanto as sempre boas letras do Barata Moura, as antigas e as novas, vão desfilando por entre ritmo, cores, gargalhadas, alegria e até mesmo alguma empatia.
E valeu. O espectáculo está cativante, bem montado, entregue, profissional. Gostei. E presumo que a minha filha também, a julgar pelo pedido de que voltemos para o rever.




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Mais um assalto 

Segunda-fera. Oito horas e quarenta e cinco minutos da manhã. De óculos escuros na cara, chego ao nosso expresso, ainda meio adormecida, mas disposta a enfrentar mais uma semana de trabalho. Estranho ver alguns tripulantes à porta e adivinho facilmente o que me esperava. Fomos assaltados. Mais uma vez.

O canto onde me sento diariamente estava todo virado de pés para o ar. Não havia um único espaço onde pudesse pôr um pé. Pelo chão, um tapete de papéis, espalhados, pastas abertas, gavetas esvaziadas, marcas de pés nas cadeiras. Uma violação de privacidade e de novo aquela sensação incómoda de estarmos a mexer no mesmo sitio onde desconhecidos, que a seu belo prazer resolveram divertir-se durante o fim de semana. Só para estragar, para enegrecer a nossa segunda-feira.

Danos materiais, quase nenhuns, expecto na viatura do nosso maquinista, um carro de luxo, que excepcionalmete ficou guardado nas nossas instalações.

Chama-se a policia judiciária mais uma vez. Lá aparecem eles, com aquele ar assustador, de maleta em punho, calçando umas luvas cirurgicas, pincelando aqui e ali com aquele pó branco, na esperança de encontrar impressões digitais.

A nós, restou-nos a tarefa do costume: arrumar tudo o que foi vasculhado, separar papéis importantes dos já ultrapassados, tentar não pensar muito nos assaltantes, que sem respeito nenhum nos despojaram da serenidade, sentarmo-nos novamente nas cadeiras onde provavelmente também estiveram sentados, atirando as nossas reservas alimenticias para o chão, num gozo que me enoja só de pensar, olhando para as fotografias dos nossos filhos.

De resto nada mais. Só a revolta, o assombro de imaginar alguém a entrar pelas grades serradas, no escuro da noite, pisar o mesmo chão que nós, mexer nos nossos papéis manuscritos, no nosso trabalho, sem pudor algum. Sem roubarem praticamente nada. Só para chatear.

Mais um assalto, para juntar à estatistica, para arquivar provavelmente nas gavetas da policia judiciária.

Com este rebuliço todo, estava acordada às nove horas da manhã, com a minha revolta contida, fumando um pouco mais que o habitual. E pensando: “puta que pariu estes gajos”.





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2004-11-12

Morreu Yasser Arafat 

Já tinha escrito sobre Arafat. Poucas palavras, que mais não eram necessárias. Continuam a não ser, mas insiste esta minha vontade.
Morreu um homem. Mas com esse homem morreu o símbolo da luta por valores defendidos de forma coerente. Morreu o Presidente do Estado da Palestina, título que soube merecer na sua condição de homem imperfeito.
Com a morte deste homem, anunciada antes de o ser, reacende-se a dúvida, o medo, a confusão. Adivinha-se o descalabro, a nova luta por uma liderança que ele conquistou com pulso firme.
Enquanto, ansiosos, esperamos estar enganados em relação à cor do futuro que nos aguarda, aqui deixo um soneto do Ary, com que tomo a liberdade de me despedir de Yasser Arafat:

Meu irmão que morreste não foi hoje
que amanheceu a nossa madrugada
tu tens o que viveste mas quem foge
continua sem corpo e sem morada

De todas as palavras que me deste
Apenas uma fica murmurada:
Onde estás liberdade que perdeste
Quando a libertação foi decretada?

Talvez naquele gesto tão distante
Em que arriscaste tudo na partida
Meu irmão camarada suicida

Aqui neste lugar e neste instante
Nenhuma voz nos deve ser bastante
Não vale a morte quanto pode a vida.




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2004-11-11

Congelada 

Hoje levei uma bronca logo de manhã. Uma bronquinha, pronto.

A minha colega de blog, que visitei pelas 10 horas, hora em que acordo por completo. Sou daquelas pessoas que dispensa palavreado logo pela manhã, preciso de beber um café, ou melhor, descafeinado, sentar-me em silêncio, ligar o meu computador, fazer umas festas aos papéis arrumados ontem meio à pressa e ir acordando lentamente.

Bom, mas a Nat, entusiasmadíssima, contava-me que temos sido visitados ultimamente por várias pessoas, anónimas ou não, que têm contribuido para que este nosso projecto cresça, contava-me que ontem à noite, bem noite, havia três pessoas on-line (eu não fazia parte do número, acrescentei). “Olha lá” - desancou-me logo - “andas muito calada, já não se escreve nada?!”. A sua frontalidade não me assustou, mas acordou-me por completo.

Fiquei a pensar que este frio, e o vento repentino, me têm congelado as palavras.

Mais alguém já me fez o mesmo reparo. A preguiça com que me enrolo no sofá até tarde, com os pés aquecidos pelo Freud, têm-me impedido de ligar o meu PC e até porque tem andado por lá um visitante chamado vírus que congelou igualmente a ligação à internet. E não me apetece chatear-me. Fico por vezes na madorna a ouvir alguns CD's que me embalam e até dispenso a televisão.

Prometo não me deixar adormecer. Obrigado pelo abanão. Valeu!





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De novo as iluminações 

Ontem fui surpreendida, a meio caminho de casa. Eu e a minha filha, que viajava atrás, meia adormecida. Junto à Amadora, deparámos com um arraial de luzes e iluminações de Natal acesas. Tentei situar-me no tempo, há alturas que parecemos andar perdidos dos dias. Era dia 10 de Novembro. Comecei a fazer contas. Falta um mês e meio para o Natal. O espírito ainda não é de compras, de luzes, de árvores, nem de Pai Natal.

O certo é que todos os dias tenho visto crescer de dia para dia aquela que dizem ser a maior árvore de natal da Europa, ou coisa que o valha. Fica ali, em frente aos Jerónimos, à beira da estrada, e é de facto uma coisa abismal. Estou curiosa por ver o resultado de tal estrutura, curiosa por vê-la iluminada, só não me apetece pensar o quanto se gastará na quantidade inimaginável de lâmpadas que serão necessárias para dar vida a uma coisa daquele tamanho.

Cada vez se torna mais precoce o Natal. A minha filha ficou de repente acordada. Tanto brilhavam as luzes como os seus olhos e a pergunta que eu esperava, saltitou da sua boca: mãe, podemos fazer a nossa árvore de natal?

Não sei por quanto tempo vou conseguir adiar a subida à arrecadação para ir buscar os caixotes dos acessórios natalícios. E espero que a tal árvore não esteja pronta tão depressa.

Não sinto ainda no ar aquele espirito de natal, a vontade de me perder na compra das prendas (até porque o subsídio ainda está longe, é precoce, como as iluminações), apenas o frio e as castanhas assadas vão dando um cheirinho à época que se aproxima.

E hoje vamos comê-las, as castanhas, até porque é dia de S. Martinho.





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República do Gerúndio 

Cirandando pela blogosfera nesta noite de insónia, e dedicando-a especialmente às terras além do Tejo, encontrei um Alentejo vivíssimo e pululante, quase como no tempo da Reforma Agrária, com a diferença de que agora a reforma é outra.
Entre muita coisa interessante –textos, fotografias, expressões desenterradas lá do canto da cavalariça mais escura- encontrei aquilo que me fez sorrir e serenar: o Alentejo descrito como a República do Gerúndio.
É que é apanágio desta província falar assim ao mesmo tempo que se “cantam” as palavras. “Estou conversando” transmite muito mais calma e continuidade do que “Estou a conversar”; ninguém contesta, pois não?
Nesta “República do Gerúndio” a vida parece arrastar-se ao ritmo a que se conjugam os verbos, sob o famoso sol escaldante, na mais do que conhecida planície. Mas isso era dantes. Estes blogs que, para mim, são, neste momento, o retrato mais fiel a que tenho acesso, já que o “meu” Alentejo continua a ser o da calmaria, o da casa dos avós, o do lume aceso, o da linguiça a pingar no pão, vieram mostrar-me que o Alentejo é muito mais do que isso, pulsa mais do que nos apercebemos. E ainda bem.
Para nós, aqui no bulício da cidade grande, parece que tudo o resto é pequeno e atrasado. Como somos nós próprios atrasados. Ou eu, obviamente.
O Alentejo cresce, aparece. Chega de o considerar província, no seu sentido quase pejorativo.
Tem avondo!




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2004-11-10

Arafat 

As notícias sucedem-se, contraditórias, mas o desfecho é certo: a morte de Arafat.
Com a sua morte o processo de paz no Médio Oriente vê-se comprometido, já o sabemos.
Se não está morto ainda, nada indica que poderá sobreviver ao coma; se já morreu, adia-se a notícia para segurar, na medida do possível, o adivinhado descalabro, por mais consensual (se possível) que seja a escolha de um novo líder.
Ainda que surjam agora os inevitáveis rumores sobre contas bancárias e relacionamentos pessoais, que em nada alterarão os 36 anos que Arafat dedicou a esta justa causa, para a nossa memória fica a imagem de um homem que fez da sua vida a luta pelos direitos do seu povo, do seu país, que é de um país que se fala.
Para a minha memória fica o kuffieh usado como símbolo da libertação de todos os povos.
Mas este texto não é uma homenagem. Nem uma despedida ainda. É apenas a vontade de marcar os dias da sua morte lembrando que, não havendo homens perfeitos, nos fazem falta mais alguns que acreditem e defendam ideais de justiça social.




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2004-11-09

A mala de Sport Billy 

É voz corrente que as malas das mulheres são um mundo. Toda a gente diz que não se encontra nada lá dentro. Mas não é bem assim. Encontra-se tudo, depois de algum esforço.
Para encontrar uma moeda perdida na sua mala, a minha parceira de blog viu-se obrigada a despejar o seu conteúdo e eis o que encontrou:
1 relógio de pulso
1 alça branca de soutien
1 alça preta de soutien
1 tamagotchi
1 mola de roupa
3 tangerinas
1 corta-unhas
1 caixa de pastilhas
2 telemóveis
2 maços de tabaco
literatura inclusa de um medicamento
1 esferográfica
1 frasco de acetona
1 bâton para o cieiro
1 mola de cabelo
1 eyeliner
1 tampão
1 molho de chaves
2 ganchos para o cabelo
1 par de brincos
No final, a desejada moeda para pagar o café.




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2004-11-08

Monday, monday 

As segundas feiras têm o seu quê de complicado, como toda a gente sabe. Por isso as nossas defesas têm se ser ainda mais funcionais do que em dias normais.
Mas hoje, para mal dos pecados que não cometo por não lhes conhecer o conceito, esqueci-me do walkman.
Ter de fazer mais de uma hora de trajecto com um livro colado aos olhos, mas sem me poder alhear das conversas alheias, é duro, muito duro.
Ainda por cima os fins de semana parecem férteis em fúteis assuntos televisivos. Ainda por cima os meus desconhecidos companheiros de viagem falam fervorosamente de assuntos que não consigo contextualizar mas que me distraem da leitura, por falarem mesmo aos meus ouvidos.
Eu até já estou habituada a que se dirijam a mim, mesmo que eu seja a única nas redondezas com os phones enfiados nos ouvidos, para me pedirem uma qualquer informação, pedido que os obrigo a repetir depois de puxar pelo fiozinho e de lhes mostrar claramente que me incomodaram. Mas logo a seguir volto à música e esqueço a interrupção.
Assim, sem walkman, sou mesmo obrigada a ouvir tudo, mas tudo o que não me interessa.
À segunda feira somos tão pouco generosos.




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2004-11-05

Uma nova tripulante 

Hoje pela manhã tivemos uma visita. Uma pequena cadelita abandonada, desorientada, correndo o risco de ser atropelada na atribulada avenida onde estamos situados.

Neste expresso existe por parte de alguns tripulantes um apurado sentido de carinho pelos animais, especialmente por estes que se perdem ou simplesmente são abandonados por quem julga ser fácil ter um cão, mas que às páginas tantas se chateiam com eles e é bem mais fácil jogá-los à sua própria sorte, ao abandono.

E a pequena cadela, que tremia com frio e com medo, procurou aconchego junto de nós. Foram-lhe concedidas festinhas que provavelmente já não sentia há algum tempo, preocupamo-nos em dar-lhe comida, a primeira que estava à mão e que por sinal era de gato, mas que importava isso? Ao almoço fizemos uma colecta dos nossos pratos e num embrulho trouxemos o que restou do cozido à portuguesa para saciar a fome ao pequeno animal.

Havia já improvisada uma cama com um cobertor e dois pratos, um para a comida, outro para a água. Acabou por dormir toda a tarde a meus pés, apesar da contestação do chefe. Mas vivemos em Democracia, até neste Expresso, e perante a voz discordante, desumana e fascista, fez-se um abaixo assinado (verbal) e a pobre cadela foi adoptada por todos nós, prometendo-lhe um banho, remédio para as pulgas, uma colecta para as vacinas e um novo lar.

Já tem nome: Luisa.





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Manhã clara 

E este alinhamento? Faz ou não faz valer a manhã? A sexta-feira? A vontade de reacordar a liberdade?

1. Amañece libertad
2. Tejo que levas as águas
3. Papá cuenta-me outra vez
4. Cantiga d'um marginal do séc. XIX
5. Flagelados do vento leste
6. Monangabé
7. Poema de bancada
8. Os meninos de Huambo
9. Moda da charrua
10. Hasta siempre
11. Cantata da paz
12. A galopar
13. Au Chilli comme a Prague
14. Todo cambia

1. E um dia fez-se Abril
2. Portugal resiste
3. El maestro
4. O homem dos sete instrumentos
5. No nos moveran
6. Canta amigo canta
7. Les anarchistes
8. Retalhos
9. Segunda canção com lágrimas
10. Cancion
11. San Francisco
12. Entre Sodoma e Gomorra
13. Pedra filosofal

Toma!!




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2004-11-04

A bagagem das viajantes 

Porque nem só de vitórias que são derrotas se fazem os dias, e porque um blog é a nossa casa, o espaço onde escrevemos o que nos apetece, muitas vezes sem o devido respeito por quem eventualmente nos lê e possa, assim, ficar a leste, que na casa da empatia não entram todos, apetece-me falar de música, da nossa, "orgulhosas autoras deste blog", da que nos acompanhou o crescimento, da que nos formou, da que arrumámos na prateleira de não-tornar-a-ouvir-ou-cantar-nem-que-chovam-canivetes, de toda, da que nos surgiu enquanto tomávamos, descansadamente, o nosso café, da que cantámos, primeiro em surdina, para não nos ouvirem lá no bar, depois mais alto, que o entusiasmo às vezes faz das suas.
Entre muito lixo, lá surgiram, de nariz levantado, em tom de desafio, as canções políticas, ou antes, as canções interpretadas num tempo de consciência política desperta.
Do nada, como tantas vezes acontece a quem nasceu em ambientes similares e cresceu num mesmo tempo, surgiu o fantástico poema do Ary:

"Tuas palavras
ora de mel, ora de fel
sabem a vida
entram na pele
doem na pele
Tuas palavras
são ternura, amor e morte
são as palavras de um forte
chamado Brel."

Esta canção, cantada já a plenos pulmões enquanto atravessávamos a rua, de braços estendidos para o infinito, numa interpretação exageradamente dramatizada, surpreendeu-nos por julgarmos que apenas cada uma de nós se lembrava dela.
Ainda bem que não é assim, ainda bem que esta, como alguns magníficos poemas do Joaquim Pessoa interpretados por Carlos Mendes, ainda nos ecoam na memória, ainda bem que, ainda que a ferros, conseguimos arrancar da memória melodias que não chegam tão claras assim, entre vozes vacilantes de quem tenta lembrar-se da lírica e uma afinação que fica a dever qualquer coisinha à perfeição.
Ainda bem que nem tudo esquece, que nem tudo se perde, que nem tudo morre.
Ainda bem que há dias assim.




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Citando a Visão, artigo de Miguel Carvalho 

Há poemas que falam por nós e pelos momentos que vivemos. Alexandre O´Neil escreveu «O Poema pouco original do medo» e não estava a pensar no que os EUA nos reservam para os próximos quatro anos. Mas podia tê-lo feito. O medo, afinal, venceu. Teve tudo, vai ter tudo.

«O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos»




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2004-11-03

A força de uma canção 

É engraçado como encontramos muitas vezes, algumas coisas em comum com os nossos amigos. Pormenores, que se tornam grandes quando nos unem na adolescência que não vivemos juntas. Mas afinal, tivemos ideais semelhantes, sabemos de cor e salteado a maior parte das canções.
Há uns dias emprestaram-me um CD chamado “Canções com História”. Fantástico! Nele me revi bastantes anos atrás, quando tinha 15 ou 16 anos e defendia com garras e dentes os ideais comunistas, amava a revolução, vibrava com as canções de intervenção e lia livros políticos. Escrevia textos sobre o 25 de Abril e lia Che Guevara. Li a história de Catarina Eufémia com 12 anos e lembro-me o quão impressionada fiquei.
Estava nessa fase da adolescência totalmente embrenhada em compreender e discutir temas políticos, embora não tenha encontrado entre os meus amigos desses anos nenhum que partilhasse esses meus ideais.
Sinto-me hoje gratificada por ter com quem partilhar músicas dessa época, cantarolá-las a duas vozes, bastando apenas uma palavra, um mote qualquer para que imediatamente, nos ocorram essas letras antigas, mas que são eternas.
Amenizei um pouco a minha forma de estar desses anos, os ideais revolucionários, a vontade de mudar o que estava mal. Não que me tenha conformado com tudo, tornei-me apenas mais comedida e revejo-me por vezes nessa minha amiga que tem ainda no sangue, a vibrar, as emoções que também anos atrás eu tive e que continuam guardadas cá dentro.
Há sentimentos que vivem connosco uma vida inteira, recordações que nos deixam os olhos a brilhar, porque nelas estão o que realmente somos, o que realmente pensamos. A força da juventude que não devemos abandonar, nem nos devemos acomodar. E essa força reencontrei-a nessas canções.




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